O legado de García Márquez


GABRIEL-GARCIA-MARQUEZ

Atualmente com 85 anos, o escritor, ativista político e jornalista colombiano Gabriel García Márquez foi diagnosticado com demência senil e como uma bofetada, os jornais alegam que não irá mais escrever.

García deveria – no que diz respeito a sua condição psíquica – viver como o personagem de seu último livro, intitulado Memória de minhas putas tristes, que relembra seu passado e tem toda a intensidade de uma vida impregnada em seus noventa anos. “… e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.”

Eric Nepomuceno, tradutor de algumas de suas obras, conta como um prólogo em Cem anos de solidão as peripécias de García e nos dá a dimensão de como foi sua vida e o quanto almejava viver da literatura, passando também pelo cinema e deixando o jornalismo como terceira opção. Eric conta ainda que entre um livro e outro, García parafraseava com os amigos algumas transcorrências da história que até então redigira, porém, quando era publicado, não se assemelhava ao que havia proferido.

Sua simplicidade fez com que mesmo após ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 82, a concepção de ter sua privacidade furtada e transformada em mercadoria nunca lhe fosse aplausível – o que feliz ou infelizmente, foi apenas reconhecimento de seu trabalho.

García sempre foi, antes de tudo, afeito ao que vale a pena viver. Tratou da solidão em suas obras como uma dádiva e condição humana. Traçou leves questionamentos existenciais apaziguados por quimeras onde num mundo em que realidade e fantasia coexistem, um esboço do absurdo descende fatores atemporais que se infiltram na memória e refletem no presente a particularidade de seus personagens.

Fazendo uso de suas próprias palavras, um brinde “à poesia, enfim, a essa energia secreta da vida cotidiana, que cozinha seus grãos e contagia o amor e repete as imagens nos espelhos.” Um brinde à esse grande escritor, guarnecido de sua verdade e poesia perene, que vive a ocupar tantas estantes e corações.


Dolorido-colorido


Caio

É com pesar que presencio a banalização, o “massacre” e o contexto equivocado em que frequentemente submetem as obras de Caio Fernando Abreu. Descambam cada vez mais “fãs” por aquela frase que gera certa identificação, a pesquisa no Google para um “maior conhecimento”, além de vez ou outra me deparar com a falta dos devidos direitos autorais. Todavia lhe pergunto: você sabe realmente quem ele era?

O “escritor da paixão”, como intitulava Lygia Fagundes Telles, era contista, cronista e novelista. Transitava entre os gêneros com qualquer coisa de amor, morte, sexualidade, solidão, política, a procura de. Nasceu e viveu por algum tempo no Rio Grande do Sul além de morar também em São Paulo, Rio de Janeiro e no exterior – já que sua inquietude não permitia que fixasse residência em lugar algum. Estudou Letras e Artes Cênicas na UFRS, mas abandonou ambos os cursos para dedicar-se ao jornalismo. A vida libertina o tornou portador do vírus HIV em 94 e empregou seu tempo desde então a jardinagem e a escrita. Dois anos depois morreu por complicações da doença aos 47 anos, em Porto Alegre.

Caio escreveu compulsivamente, viveu compulsivamente e morreu na ânsia de continuar a escrever. Em seus últimos anos de vida, apesar de se deixar aperceber um escritor deveras depressivo, suas cartas dão a dimensão de que sempre tentava ver o lado favorável e esperançoso de tudo que o acontecia quando assinava “seu amigo mais positivo”, numa mostra do quanto constituia no humor uma arma eficaz para enfrentar a vida e retardar a chegada da morte. Outrossim, um embuste: “chorei algumas vezes porque a vida me dá pena, e é tão bonita.”

Ainda hoje muitos pesquisadores resgatam sua história e expandem o conhecimento da nossa geração sobre suas obras, e ao contrário do que muitos pressupõem, suas produções não são autobiográficas. Caio dizia que o único ponto de vista que você conhece sobre o mundo é o seu próprio, que a experiência pessoal é indissociável do texto.

Sua homossexualidade eminente e grande influência textual de Clarice Lispector ainda marcam a ferro e fogo aqueles que tiveram o prazer de conhecê-lo e/ou carregá-lo por entre as horas apressadas de cada dia. Caio foi sensível, esotérico, urbano, cosmopolita, astrológico, existencialista. Um estranho familiar.

Se a internet restaura os fios que nos ligam ao passado, essa tessitura atemporal em morangos, dragões, maçãs, muros e agostos é a herança literária que impõe uma competência intrínseca acerca de sua vivência, contextos e significados – com grandes vibrações de axé.


Entrevista: Clarissa Corrêa

Entrevista Clarissa Correa

Clarissa Corrêa é gaúcha, publicitária, colunista da Revista TPM, autora dos livros Um pouco do restoO amor é poá e Para todos os amores errados e alimenta seu próprio site com crônicas e contos. Seus textos – sejam em fragmentos ou na íntegra – são lidos e compartilhados em excesso pela internet.

Clarissa, o que te impulsionou a fazer um blog em 2005?

Eu escrevo desde pequena. Lembro que escrevia cartinhas para minha família e ficava ao lado deles, esperando uma lágrima. Mais tarde, descobri que isso significa que sempre gostei de causar emoção nas pessoas. Quando era criança, achava que emoção era lágrima. Guardava textos em cadernos, blocos, tudo na gaveta. Um dia eu decidi compartilhar com quem quisesse ler. Pensei que ninguém leria nada. Mas o blog começou a ser lido. E eu comecei a gostar de ter quem me lesse.

Como foi quando o Pedro Bial citou o trecho de um de seus textos na 11ª edição do Big Brother e como isso repercutiu na sua carreira?

Aquele texto circulou bastante entre jornalistas e na internet, até que chegou nas mãos do Pedro. Pra mim foi uma surpresa. Eu estava assistindo no quarto, meu marido estava na sala. Saí gritando pelo apartamento feito uma maluca. Em segundos, meu twitter, que tinha em torno de 1700 pessoas, foi para 3000, 4500, 5000. As pessoas colocaram aquela frase na internet e apareceu meu nome, meu blog.  Foi bem legal. A partir daí, mais gente conheceu meu trabalho. Convidei o Pedro para escrever o prefácio, ele topou.

Suas produções são autobiográficas?

Nunca são. É óbvio que algumas coisas são inspiradas no que já vivi, mas não é o retrato da minha vida ou da vida de alguém. São coisas e situações que todo mundo passa.

Seus dois livros de crônicas Um pouco do resto e Para todos os amores errados abordam principalmente os (des)amores, (des)encontros e (des)ilusões. Por que sente essa necessidade em expor esses prefixos, esses dois pólos?

Tenho três livros publicados. O primeiro, Um Pouco do Resto, é um livro de crônicas leves, divertidas, femininas. O segundo, O amor é poá, é um livro de frases. Frases que surgiram no twitter. Inicialmente, para divulgar meu primeiro livro, fiz um twitter de frases. Depois, ao invés de publicar trechos do livro, eu colocava qualquer coisa que dava na telha. A partir daí, surgiu a ideia de reunir essas frases e fazer um livro de bolso. O Para todos os amores errados é um livro bem específico: fala de amores que deram certo até onde tinham que dar. De romances que não foram eternos. Decepções, desilusões, coisas que a gente vive. Acho que os sentimentos, as relações, os encontros, as perdas, a felicidade, a angústia, tudo isso faz parte do cotidiano. Sentir é essencial para viver. E é um assunto que sempre dá assunto.

Quem são suas referências na literatura?

Adoro Caio F. Abreu, Clarice Lispector, Philip Roth, Milan Kundera, Virginia Woolf, Woody Allen, entre outros.

Pensa em posteriormente escrever um romance ou seu caráter distintivo é unicamente crônica e contos?

Eu gosto de crônicas e contos. Mas penso, sim, em um dia escrever um romance. Tenho um livro infantil que talvez seja publicado no próximo ano. E estou com dois projetos: escrevendo um livro e com outro em andamento. Ambos são crônicas.

Qual a sensação de manter essa dualidade em ser uma escritora de internet e livros?

O blog, pra mim, é uma ferramenta, um instrumento para divulgar meus textos. Não sou uma blogueira, ao contrário do que muitos dizem. O blog funciona unicamente para isso: divulgar textos. Este ano ele foi reformulado, virou site. Comecei escrevendo na internet. E agradeço imensamente à essa rede, pois dessa forma consegui atingir milhares de pessoas. Mas a internet é bem traiçoeira, é terra de ninguém. Muitos textos circulam com nomes de autores errados, outros sem nome. As pessoas repassam informações sem verificar se elas são, de fato, corretas. Os livros foram uma consequência de tudo isso. Eu comecei a escrever, comecei a ser lida, senti a necessidade de fazer a coisa acontecer. E “a coisa acontece” através da publicação de um livro. Foi difícil, foi suado, levei 2 anos pra conseguir publicar. Mas valeu muito a pena. Hoje, a minha editora é a Gutenberg, do grupo Autêntica. E tô bem feliz.

Sente-se profissionalmente realizada?

Não. Falta muito pra eu me realizar. Quero escrever muito mais, publicar mais livros, atingir mais pessoas com minhas palavras. Quero (dá pra sonhar alto?) ver meus livros em outros países, traduzidos. Quero tudo.


Com a dimensão deste agora

Tanta ternura escondida entre os dedos que seguram essa adaga fria, que confundem a que distância vai essa ânsia que se prende e se borda destinos, especulando mistérios por viver à revelia de uma consciência parca até mesmo nas ilusões em aplacar ansiedades e extravios.

Escrevo a mercê da quantidade de facetas invisíveis que vez ou outra chegam a pele e ultrapassam, que me prendem a uma ponderação sensível com laços de ressonância e saudade. Escrevo enquanto te observo pelo estar-dentro-de-mim, quando num afago imagino conhecer-te em tudo que é silêncio e sombra e me vem o desejo de estar dentro do arco dos teus braços, percebendo de súbito o efeito da tua ausência na minha memória, na minha pele, na ponta dos meus dedos.

C.F.A. estava certo quando se referia a dificuldade em falar e dizer coisas que não podem ser ditas. Quem escreve vive mesmo de reflexos, imagens, palavras. Do não real, talvez. O não palpável. Mas insisto, mesmo quando as palavras me são pérfidas e me endereço ao outro entregando o eu, perdendo o que não tenho quando resta apenas a possibilidade ilimitada da falta.

Desfaço-me como ladrilhos desgastados pelas estações que sobrevivem aos trancos do tempo, incapaz de afastar os devaneios de um vir a ser. Embevecida defronte este agora, que deixo sua imensidão me transcender sem contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável nos esgares de uma saudade ultraje, em veredas, voz e depreender-me em um abraço.


Entrevista: Adriana Lisboa

Manuel Bandeira assegura que “a poesia está em tudo, tanto nos amores, como nos chinelos” e Adriana, parafraseando em Um beijo de Colombina, lamenta: desentranhar a poesia deste mundo. Eu bem que gostaria. Alguma coisa sempre me escapa, amigo Manuel Bandeira, meu irmão. Alguma coisa sempre me escapa. Os amores, os chinelos.

Carioca, nasceu em 1970, começou sua carreira com a publicação do romance Os fios da memória e se seguiram Sinfonia em brancoUm beijo de colombinaRakushisha  e Azul-corvo, além da coletânea de contos curtos e poemas em prosa Caligrafias, a novela O coração às vezes para de bater e os livros infanto-juvenis Língua de traposA sereia e o caçador de borboletas e Contos populares japoneses.

Com uma propensão ao nostálgico, equilibrando forma e conteudo, Adriana fundamenta a literatura brasileira de qualidade. Seus livros foram publicados em dez países e já recebeu os prêmios José Saramago, Moinho Santista, Autor Revelação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, entre outros. Graduada em música pela Uni-Rio, fez mestrado em literatura brasileira e doutorado em literatura comparada na UERJ. Traduziu para o português autores como Robert Louis Stevenson, Cormac McCarthy, Marilynne Robinson, Jonathan Safran Foer e Maurice Blanchot. Morou na França, passou algum tempo no Japão e vive hoje nos Estados Unidos.

Adriana Lisboa

O que há de peculiar em ser uma escritora brasileira em terras estrangeiras?

Escrevo em português, ouvindo outra língua durante boa parte do dia, e vou ao Brasil uma ou duas vezes por ano. Isso cria uma espécie de esquizofrenia na minha vida – ao mesmo tempo, cria uma distância saudável dos dois mundos. Por exemplo: nunca me envolvo nas rixas que volta e meia acontecem no meio literário brasileiro. Com frequência, nem fico sabendo delas. Ao mesmo tempo, não faço parte dos círculos literários do país onde moro, os Estados Unidos, o que torna minha vida mais simples, mais fácil. Mais “civil”.

Quando trata das impossibilidades do amor em suas histórias, transpõe aquilo que acredita ser verdade ou é apenas uma forma de problematizar suas criações?

Acredito, em parte, ser verdade. O amor (nas relações entre duas pessoas) é uma construção, uma ficção, uma dúvida, em grande parte é aquilo que projetamos no outro e aquilo que esperamos do outro, e somente quando temos maturidade para compreendê-lo como tal podemos compreender, também, a pessoa a quem amamos. De uma forma menos narcísica. Com limitações, frustrações, imperfeições. Como de resto é nossa vida.

Li em uma entrevista que seus personagens favoritos são os de Azul-corvo. Dos seus livros, tem algum que como um todo, é o que mais gosta?

Em geral, é sempre o último livro. Azul-corvo, no momento, é o trabalho que considero mais bem sucedido (de acordo com os meus próprios parâmetros e expectativas). Tenho um carinho especial por Rakushisha, por vários motivos, mas invariavelmente já encontro nele passagens que teria escrito de outro modo, hoje. É inevitável.

Toda a vivência e personalidade de seus personagens são inspirados em algo/alguém?

Não especificamente, embora eu esteja sempre atenta a histórias que observo ou que me são narradas por outras pessoas,  e que algumas vezes são incorporadas na narrativa.

Trabalhar como tradutora fez com que tratasse suas produções de forma mais minuciosa? 

Sem a menor dúvida. Traduzir é uma forma de ler mais atentamente, e isso acaba se refletindo numa atenção redobrada, no meu caso, na hora de escrever: a atenção ao ritmo, à sonoridade, à escolha das palavras, à pontuação, etc.

Em Um beijo de Colombina, você diz que “se a vida imita a arte, que imita a vida, que imita a arte, Teresa era uma personagem de Teresa. Ela se escrevia.” Você também se escreve?

Na verdade, penso que escrever é um modo de processar o mundo, de tentar entendê-lo – é uma reflexão infelizmente fadada ao fracasso, pois o mundo não se submete. O mundo escapa a todos os nossos esforços de fazer sentido dele. Então, não é que eu me escreva, exatamente: eu escrevo a minha curiosidade e a minha perplexidade diante do mundo, da vida, da morte, do amor, desse grande mistério que é abrir os olhos pela manhã e ir à luta.


…é agora, nesta contramão

Ela o fitava como se houvesse entre eles uma necessidade quase antiga de atenuar os polos isolados. Fitava inclusive uma parte de si –  isso ela sabia  – como se num feitio tentasse recuperá-la, sem deveras almejar de aquilo sobrevir. Ficava a espreita, quase escorregadia em sua incompletude ora incômoda de se saber subjugada a ele.

Sua tendência à suscetibilidade lhe causava quase um mau jeito de viver, mas gostava de se saber estrangeira. Calejada, preferia dissimular, inocente de sua própria transparência e desordem. Inocente que seus instantes habitassem em seus infinitos.

Velando por seus anseios em silêncio e com uma licença poética que porventura a faz transbordar, continua a fitá-lo – porque de uma forma ou de outra, desaprendera a desviar o olhar.